As perturbações emocionais surgem quando temos emoções negativas que de alguma forma não conseguimos gerir. E, enquanto a pessoa está a comer, vai devorando os medos, a tristeza, a raiva, a solidão, emoções e sofrimentos que não consegue enfrentar de outra forma. Em alguns casos, este “escape” pode até tornar-se uma compulsão.

Isto pode acontecer em pessoas com maior carência afetiva, com baixa autoestima, autoimagem negativa, que realizam dietas muito restritivas, para fugir de emoções negativas sentidas no momento, outras por causa de perturbações psicológicas (ansiedade, depressão…), outras até para não pensar e sentir. Todas estas variáveis dependem do que as pessoas experienciam ao longo das suas vidas.

Os alimentos fazem-nos sentir sensações de prazer e quanto mais se consome, mais prazer ou alívio é gerado e maior será a necessidade de comer. Todo este processo transforma-se num círculo vicioso que dificilmente se consegue sozinho quebrar e parar. A falta de controlo está ligada à parte inconsciente, como se o indivíduo entrasse numa espécie de piloto automático não conseguindo parar até sentir a sensação de alívio.

TRANSTORNO ALIMENTAR
É importante saber distinguir o que é um transtorno de compulsão alimentar e os comportamentos alimentares que se tem, por exemplo, num contexto de festa e/ou de celebração. O convívio à volta da mesa faz parte da nossa cultura. Estas situações levam por vezes a alguns exageros na quantidade de comida ou até na escolha dos alimentos.

Mas, em dias de festa, quem sofre desta perturbação encontra uma justificação para a sua compulsão, «hoje posso comer mais porque toda a gente o faz», permitindo-se novamente entrar neste círculo vicioso.

Fora o contexto de convívio, é também comum sentir aquela “fome de doces” por estarmos mais tristes ou aborrecidos e, por vezes, comemos de forma mais descontrolada.

Contudo, estas situações não querem dizer que se sofre de uma perturbação alimentar. Faça as seguintes questões:

  • Os excessos são constantes?
  • Surgem com alguma frequência ou são apenas momentâneos?
  • Porque sente esta necessidade de comer?
  • Sente que está a tentar preencher um vazio? Qual?

Se a resposta for não, provavelmente não se tratará de Compulsão Alimentar.

SINTOMAS
De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (DSM V), os sinais de compulsão alimentar podem ser:
- a ingestão excessiva de comida num período determinado de tempo;
- sensação de falta de controlo sobre a ingestão;
- comer mais rapidamente do que o normal;
- comer até sentir um desconforto;
- comer grandes quantidades sem ter fome;
- sentir frustração, revolta e tristeza logo após o episódio;

Todos estes critérios são sinais de preocupação quando ocorrem de forma constante. Quem sofre deste transtorno sente uma mistura de dor, vergonha e culpa perante esta falta de controlo. Após um episódio de compulsão, a pessoa tenta mentalizar-se que não pode mais voltar a ter estas atitudes e promete a si mesma que vai se esforçar para se controlar. Este processo representa uma luta interna entre a consciência e a nossa parte automática/inconsciente. As emoções associadas à parte inconsciente são tão fortes que conseguem sobrepor-se à própria vontade de controlo.

Neste sentido, é frequente ocultar os sintomas e realizar estas compulsões em segredo ou o mais discretamente possível. Por norma, quando a pessoa está sozinha estes comportamentos costumam acontecer. A solidão pode influenciar momentos de
introspecção, de “olhar para dentro”, deixando a pessoa mais vulnerável, confrontando-se com a sua própria dor.

TRATAR DA RAIZ DO PROBLEMA
É importante trabalhar a raiz do problema. Para isso, torna-se importante um acompanhamento especializado de Psicoterapia, para percebermos e trabalharmos o vazio emocional que está a ser preenchido.

A conjugação com um profissional na área da nutrição é também importante na medida em que por vezes é necessário desmistificar algumas crenças relativas à alimentação e fomentar hábitos alimentares saudáveis.  Se o tratamento passar apenas pela nutrição, dificilmente a perturbação irá ser ultrapassada. No entanto, não resolve a parte interna, os conflitos psicológicos, as crenças associadas à autoimagem, todos estes fatores devem ser trabalhados em contexto terapêutico.

Texto da autoria de Cécile Domingues, psicóloga e psicoterapeuta. Diretora clínica da Clínica da Mente

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